Santinho

Ali! Ali! É ele! É ele!

Meus lábios dançavam no ritmo do dedo indicador enquanto eu balbuciava e apontava pro outro lado da estrada. Lá, na contramão da rodovia, um senhor franzino, de muita idade, sob um sol muito forte, numa frequência pouco cadenciada enquanto pedalava sua bicicleta que acoplava uma carroça. Dou um jeito fácil de parar e outro difícil de puxar assunto. Instantâneo. Eu ainda lembro daquele olhar. Eu sempre lembro. Foi aquela mão, agora ainda mais trêmula, que, no bem pretérito, havia erguido com muito esforço uma balança de pouca precisão e… “Deu 5kg”. Era o peso do meu reciclado. Nunca fiz tanto com 5$.

Seu Santinho! Nome dele. Arranquei. E deve ser mesmo. É de uma santidade ao ofício e à necessidade arrastar um carroção por uns 30 anos. Seu Santinho me deu o “santinho” dele: um papel amassado, suado, marcado com as digitais já quase apagadas daquele “santo”. Mas, vívida mesmo, estava a tinta que grafava o número dele. Fez questão de recitar de có… Talvez pra mostrar que não era a mente que arrastava aquela ferragem toda.

Prometi ligar, caso juntasse algum material. Eu até juntei. Mas ainda não liguei. E também não mais o vi. Confesso que até andei despretensioso por aí algumas vezes só pra ver se o encontrava. Mas não! Nem mais a mão trêmula. Nem aquele olhar e, nem mais nada… Só a rodovia. Seu Santinho deve ter rumado bairro a dentro. Estrada afora. BR adiante… Mas, se, amanhã ou depois, coragem me sobrar pra puxar aquele papel, agora limpo, de algum bolso de alguma calça e ligar: eu vou sorrir. Dizer que tenho material e que, dessa vez, ele nem precisa pesar. Já vou ter ganhado mais que meus 5$ de outrora.

“Dá mais de 5kg, seu Santinho!” Se cuide e bom trabalho”.

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