A CADA 24 HORAS, UM NOVO SENTIDO.

Tenho o privilégio de exercer um trabalho que não apenas supre minhas necessidades temporais, mas que, sobretudo, sustenta minha vida espiritual. A cada plantão sou convidado a entrar em histórias diferentes: vidas que se foram, histórias inacabadas, idas que não chegaram. A farda pode até disfarçar, mas o coração sente. Sente a dor de cada familiar, o choro de uma filha, o desespero de um pai, a agonia de uma esposa. Na maioria das vezes somos os primeiros a chegar e, em todas elas, os últimos a sair. Preciso cuidar do que ficou enquanto vejo partir aqueles cuja dor apenas começou.

A cada 24 horas também me lembro do quanto somos frágeis, fracos e, ao mesmo tempo, iguais. Não importa se o carro é do ano ou de 1986; o invólucro é o mesmo. Não importam investimentos, status ou roupas elegantes — todas assumem a mesma tonalidade no fim. Para os que ficam, as lágrimas têm o mesmo preço, o mesmo sabor e o mesmo sentido. Isso nos lembra o quanto somos iguais.

Mas esquecemos disso — e talvez esse seja um grande dom divino. Esquecer que não sabemos a hora nem o lugar. É claro, enlouqueceríamos se pensássemos nisso a todo instante. E então, no meu caso, chegam mais uma vez as 24 horas, trazendo novos sentidos. Aproveito para tornar-me melhor, sorrir mais e compreender que, ao final, nessa estrada da vida, em algum momento todos seremos vítimas de um acidente que revelará, aos que ficam, o quanto sempre fomos iguais.

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