Era cedo

O relógio devia acusar 05:00h da manhã. Levanto-me do meu colchão fino, de espuma envelhecida pelo tempo e pelo uso. O despertar é barulhento: pássaros cantando, galinhas em busca de alimentar suas crias. O pisado sobre o telhado, apesar de assombroso, são os galos em busca do cume para apresentar o melhor canto. Raios de sol expulsam-me do descanso, feito luz para vampiro. Levanto-me.
Era mais uma manhã linda, daquelas dignas do campo ao redor. Sobre um tronco de madeira, feito mesa improvisada, repousa apenas uma garrafa enferrujada — a única coisa que de fato me acompanhava por anos. Companheira de tantas noites quentes e silenciosas. Apesar dos tantos quartos, o vazio era perceptível a qualquer hora. Às vezes, mesmo após o despertar, falta coragem para as atividades mais simples, como escovar os dentes ou ajeitar uma ou duas dobras no lençol já em estado avançado de desgaste. Uma rotina diária, sem sentido — ou talvez com um sentido que eu ainda não tivesse coragem de encarar.
Do lado de fora, porém, a vida não hesita. O dia não pede licença para acontecer. O campo respira, insiste, floresce. Há uma dignidade silenciosa na simplicidade da terra, no trabalho que começa antes mesmo que o corpo queira obedecer. Fico de pé, olhando a luz invadir o pequeno quarto, e percebo que, apesar do cansaço que mora em mim, o mundo continua oferecendo recomeços.
Talvez a vida seja isso: levantar-se mesmo quando o coração ainda está deitado. Dar alguns passos, ainda que lentos. Abrir a porta. Deixar que o sol toque o rosto. E entender que, enquanto houver manhã, haverá também a possibilidade de sentido.

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